sábado, 25 de Agosto de 2007

::ANOS D’OURO DA TV::

Mudei para o canal mais antigo de Portugal, a RTP, onde desfilava em traje de gala, a Gala dos 50 Anos da RTP. Esta maravilhosa viagem pelos tempos da televisão em Portugal, foi também uma viagem pelo álbum das memórias do país, pelo Serviço Público, pelos bons programas, pela informação no antigo regime, pelos sucessos desportivos, pelas crises políticas, pela vida. Foi também uma viagem pessoal através de músicas e imagens guardadas no lado esquerdo do cérebro, a emoção.

Isto tudo fez-me pensar naquilo que a televisão tem sido nos últimos 1o anos. Com a mercantilização dos conteúdos televisivos, motivada por um infoentretenimento nem sempre — ou quase nunca — de real interesse. Durante 30 anos a televisão serviu propósitos que o governo não foi capaz de servir, suprimiu lacunas sociais e tornou a educação e a formação cívica possíveis para aqueles que não tinham outra forma de o fazer. Hoje, mais do que nunca, a televisão necessita de reviver os seus anos de ouro. Carlos Pinto Coelho disse, e faço minhas as suas palavras, “peço à televisão que reencontre o serviço público”.

domingo, 29 de Julho de 2007

:: COMUNISMO E LUGARES COMUNS DO CINEMA AMERICANO::

O cinema americano, independente do sucesso e do contributo inegável para a 7ªArte, é muitas vezes palco de repetidos lugares comuns. Situação particularmente verificável nos filmes de acção, onde ocorre a dictomia bem vs mal, e nos quais os americanos – representados através de soldados, forças especiais ou super-heróis – representando o lado do bem, se opõem a forças malignas, contribuindo para a salvação do planeta. Os Estados Unidos, são assim, repetidamente apresentados como guardiães da paz universal e como povo eleito, capaz de mudar os desígnios do mundo. Esta imagem contruída pela opinião pública e amplamente divulgada pelo cinema, tem como objectivo não só a auto-afirmação americana num plano interno — contribuindo para a formação de um objectivo comum fecundando valores de nação — com ainda, e sobretudo, pretende projectar-se ao nível externo. Aproveitando o sucesso global do cinema americano “vende-se” nas bilheteiras uma imagem de supremacia americana, construindo o ideia de que precisamos dos EUA para nos sentirmos seguros.

À parte desta umbiguismo cinematogrático americano, outro lugar comum tem sido, ainda na dictomia bem/mal, a escolha da Rússia (e ex-URSS) como agente do caos e da desordem universal, como responsáveis por atentados à segurança americana (cliché americano) e permanentes fecundadores de conspirações anti-americanas. Filmes como o 007 ou os protagonizados por Steven Seagel (são meros exemplos) retratam bem esta imagem que ultrapassou a Guerra Fria e se mantém até hoje. Mesmo em filmes ou séries de televisão cuja temática não seja exactamente a guerra EUA/Rússia, mas que envolvam situações de perigo público, os malfeitores são na maioria dos casos agentes secretos da Rússia e ex-agentes KGB, ou então os seus nomes são de ascendência soviética (nos casos mais dissimulados).

É, portanto, preciso que o cinema americano procure novas formas de abordar o terror e o perigo público, ultrapassando a ameaça soviética, hoje em dia pouco realista.

domingo, 22 de Julho de 2007

::BLOGUE VS CORREIO DOS LEITORES?::

Boa parte dos indivíduos, perante uma notícia, fenómeno ou acontecimento social, formulam opiniões. A interpretação dos fenómenos e a formulação de critérios e modelos de abordagem do real constituem-se como comportamentos sociais recorrentes inerentes ao ser humano, isto é, a vivência social leva-nos a interpretar os acontecimentos de determinada forma ao mesmo tempo que nos força a interpretar esses mesmos acontecimentos. A experiência social configura-nos para a reflexão do real.

Ora, se todos nós formulamos opiniões acerca dos acontecimentos do quotidiano — mais ou menos mediatizados — é natural que haja uma necessidade de expressarmos essas mesmas impressões. À tradicional ‘conversa de café’ sucedeu-se o correio dos leitores dos jornais. Este espaço apresenta uma dinâmica diferente dos bitaites de um café. Primeiro, o correio dos leitores é selectivo. Isto significa que serão publicadas aquelas cartas que se enquadrem nos parâmetros definidos pelo jornal, parâmetros esses definidos em função da qualidade da escrita, da pertinência do assunto, da linha editorial do jornal e do politicamente correcto. Portanto, o correio dos leitores não é democrático, embora seja democratizante — uma vez que tende a estar ao dispor de todos os cidadãos, sem excepção.

Porque o correio dos leitores não é garantia da voz de todos, nasceu uma ferramenta no ciberespaço capaz de albergar, agora sim, de modo intrinsecamente democrático e liberal, todas as opiniões e bitaites, da mais válida ao mais desconcertante desvario, sem parâmetros e critérios — além do bom-senso do autor. Falo, claro está, do blogue ou weblog.

Neste sentido, o blogue é a ferramenta última da possibilidade infinita de expressão e exposição. Claro que, com a imensa oferta blogosférica, boa parte dos blogues não terão a leitura que tem um correio do leitor. Mas isso já é resultado de outros factores: primeiro do mediatismo do seu autor, segundo da pertinência da temática, terceiro da qualidade da postagem.

segunda-feira, 16 de Julho de 2007

::O ERRO DESFRAGMENTADO::

O amigo Tiago Viana, camarada deste cantinho cibernético que é a blogosfera portuguesa, em relação a este post, diz o seguinte:

Não há volta a dar. Já houve sucessivas tentativas de reabilitar o teatro de revista. Mas as pessoas simplemente não vão! Em parte porque este teve o seu auge no período da ditadura em que era uma forma de crítica social velada… Mas esse tempo passou e as gerações seguintes (e mesmo as anteriores) já não vão ver este género de espetáculo!

Para já agradeço o comentário, é sempre positivo e reforço da motivação quando um post suscita a discussão. As tentativas de reabilitar o teatro de revista a que o Tiago se refere são, na verdade, tentativas politizadas, isto é, aconteceram em boa medida na esfera política e neste sentido nos media. O teatro de revista tem sobrevivido por conta própria e às custas da vontade de Hélder Costa e das produções da Toca dos Raposos — empresa do casa José Raposo e Maria João Abreu — e bem, assim, do forte e positivo apoio da TVI. Portanto, as tentativas de reabilitação do Parque Mayer e do Teatro de Revista foram, sempre, internas.

Segundo. Concordo que o auge do Teatro de Revista foram os anos 40, 50 e 60. Isso eu já havia referido. Todavia, os anos posteriores, incluindo o passado recente (quase presente) tem visto no Parque Mayer, mais precisamente no Maria Vitória, boas e muito boas revistas, com revisteiros que não deixam ficar mal o nome da Revista à Portuguesa.

Terceiro e mais importante. Há um erro comum que é preciso desfragmentar: não é verdade que as pessoas não vão ver a revista. Este tem sido o argumento daqueles que pretende ver a revista finada e usar o recinto do Parque Mayer para fins que não os culturais. A verdade é que a cada nova revista que estréia no Parque Mayer por semanas a fio temos casas lotadas, tanto no Mayer quanto no Sá da Bandeira. Nos últimos anos tenho acompanhado boa parte das revistas – algumas das quais cheguei a ver tantas vezes que já sabia as rábulas de cor — e posso afinçar que raras vezes não tive de esperar na fila para entrar. A cada nova revista são marcadas dezenas de excursões de todo o país (em especial da região norte) com destino ao Parque Mayer.

Portanto, quando se diz que as pessoas não vão ver a revista, temos que ter presente a fonte da mensagem. Para muitos esta é a informação que é preciso passar. É irreal pensarmos que o Teatro de Revista, os presentes moldes de programação e apoios, seja capaz de ter um papel social e uma força aglutinadora que tinha à 30 e 50 anos atrás. Mas a mesma não perdeu o seu fôlego de crítica política e social.

domingo, 15 de Julho de 2007

::COSTA DO PARQUE (OU DA REVISTA À PORTUGUESA)::

Confirmando-se a vitória de António Costa para a Câmara de Lisboa confirma-se também o fim do Parque Mayer e da revista à portuguesa. O teatro de revista tem feito parte da história teatral e cultural do nosso país, marcando amplamente a vivência da oposição durante o regime autoritário em que Portugal esteve encarcerado. Com um forte pendor satírico e de crítica social e política, mesclam-se em palco momentos de drama, comédia e musicais.

É lamentável, digo eu, que sucessivos governos tenham suplantado o interesse histórico-cultural por interessentes estritamente económicos. Portugal continua a ser um país a braços com a despreocupação cultural. É inegável a necessidade de aliar produção cultural — que tem elevados custos — a rentabilização económica, aliás, cultura e lucro não têm de estar em cantos opostos. No entanto, para que da programação cultural se retirem ganhos é forçoso que se façam investimentos nessa área.

Quando se diz que o teatro de revista se perdeu no tempo e que é incapaz de captar novos públicos, está-se a procurar uma justificação para a aplicação da pena de morte. Cruzam-se os braços e encolhem-se os ombros, ao invés de se arregaçar as mangas. A revista à portuguesa, tal como o nome indica, é um género teatral cujos contornos são genuinamente portugueses. Por isso, é fundamental que se olhe para o teatro de revista, no Parque Mayer ou noutro local, como uma marca da nossa tradição, cujas ramificações tocam o teatro de GilVicente. Neste sentido, para a preservação da revista à portuguesa requerem-se medidas simultaneamente de direita e de esquerda. Isto é, à direita pede-se emprestada a preocupação com os valores e costumes tradicionais e a necessidade de preservação dos mesmos, e da esquerda importa-se a projecção vanguardista dos espaços e programações culturais e a preocupação com a educação e formação cultural popular.

No que concerne ao recinto do Parque Mayer, acredito numa solução cultural. Ou seja, na requalificação do espaço oferecendo diversidade de programas culturais — concertos, exposições, teatro dos mais variados géneros, etc — criando no local um parque cultural da cidade de Lisboa.

::© Rábula de José Raposo representando o poeta Ary dos Santos, em A Revista é Liiinda!. Foto de Arlindo::

terça-feira, 3 de Julho de 2007

::MODERN TIMES::

aqui havia falado de graffiti, mas surgiu uma nova informação, pelo que voltar ao assunto nunca é demais — a menos que nada de novo se tenha para dizer. Marília Martins, correspondente d’O Globo em Nova Iorque, refere uma série de ataques contra a arte de rua, graffiti, assinados por um tal de Splasher. Ao contrário do que aconteceria em Portugal, o objectivo de splasher, não é propriamente banir o graffiti como sinónimo de arte moderna. Antes protesta contra uma “arte subserviente ao mercado e à sociedade de consumo”.

Estamos, portanto, perante uma vivência distinta da arte urbana. O graffiti norte-americano tem servido, na última década, como mostra de talentos, não só para as galerias de arte moderna como para o frenético mundo do design gráfico. Shepard Fairey é um exemplo de um graffer cujos dotes têm sido usado no mundo publicitário e expostos em galerias. Numa festa organizada na Galeria Johnny LeVine, Chelsea, NY, em homenagem a Shepard Fairey, um grupo distribuiu um manifesto de 16 páginas, cuja capa apresentava uma imagem criada por Fairey manchada de tinta. No referido texto, Splasher afirma que sob este nome se reune um grupo de artistas protestando contra a péssima qualidade da arte em Nova Iorque.

Um movimento alternativo, fruto da abertura artística e das inúmeras possibilidades de oportunidade. Modern times so far from us.

quarta-feira, 27 de Junho de 2007




Uma rápida ida ao Público e um click na coluna dos blogues internos, levou-me até ao Ponto Media, um blogue de António Granado. Já não passava lá há uns tempos, pelo que optei por tomar este blogue como tema de reflexão: o que se passa com o Ponto Media? Porque não é ele um blogue aglutinador? O sucesso de um blogue é medido por duas coisas: pelo seu sitemeter e pelo número de blogues e sites que o linkam.


O sitemeter do Ponto Media estatifica em 170 o número de visitas diárias únicas, o que é muito baixo atendendo ao facto de A. Granado ser jornalista do Público e o Ponto Media estar alojado nos blogues do mesmo jornal. Em termos de linkagem, o technorati regista um número de 1,817 blog reactions. É certo que tudo isto é relativo, uma vez que quantidade não pressupõe qualidade. Não pressupõe mas faz pressupor.

Depois temos também uma questão cultural. A blogosfera portuguesa é uma blogosfera muito politizada, por um lado, ou muito voyeur por outro. Blogues temáticos, embora do ponto de vista formal do ciberespaço correspondam a uma mais valia maior, do ponto de vista da vida blogosférica não apresentam uma dinâmica de visitas e feedback à altura daquilo que proporcionam. O facto do Ponto Media ser um blogue sobre as ciências da comunicação reduz amplamente a procura diversificada. Para além disto, o Ponto Media, é um blogue de linkagem externa, o que significa que se afasta bastante daquilo que em Portugal se procura na blogosfera, e se aproxima mais do conceito de blogue anglo-saxónico. Em Portugal as pessoas procuram opinião num blogue, crítica, análise, reflexão, procuram algo que espelhe o seu autor, e isso no Ponto Media não existe com regularidade. Esta vertente internacional do Ponto Media ficou bem patente no reconhecimento alcançado com os Deutsche Welle International Weblog Awards 2004. Aí o Ponto Media foi considerado pelo júri o melhor blogue jornalístico em português. «António Granado oferece uma variedade de links relevantes para todos os que se interessam pela revolução mediática que estamos a viver», afirma José Luís Orihuela, um dos membros do júri que também é blogger. «O Ponto Media é um blogue para jornalistas, investigadores dos media, estudantes e bloggers», acrescenta.

O Ponto Media, é um blogue de referência mas não para a blogosfera portuguesa. Isto não é bom nem mau, isto é, é bom ou mau consoante os objectivos que A. Granado se propõe a atingir com o sue blogue. Tudo o resto é relativo. E com isto relembro que estas palavras também se aplicam ao blogue Engrenagem de João Pedro Pereira.